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Correio da Bahia (BA) - 10/04/2005

Nepotismo se alastra na prefeitura de Salvador

Da Redação

A presença do nome Odiosvaldo Vigas numa matéria não significa necessariamente que essa pessoa ou empresa esteja envolvida em algum caso como acusada de corrupção, mas apenas que é mencionada.

Preste atenção em possíveis homonimias: verifique pelo contexto da notícia se o nome mencionado no texto corresponde realmente ao que está sendo procurado, e não a outra pessoa ou empresa com o mesmo nome.

Recentemente o Brasil ficou estarrecido quando o presidente da Câmara Federal, deputado Severino Cavalcanti (PP-PE), assumiu que tinha contratado seus filhos sem concurso - por possuírem curso superior e gozar de sua confiança -, para cargos importantes na Casa. Mas o nepotismo não é uma realidade tão distante e focalizada apenas na Câmara dos Deputados. Aqui em Salvador ele está ocorrendo em larga escala na prefeitura, após o prefeito João Henrique Carneiro (PDT) ter assumido o cargo.

O próprio prefeito João Henrique Carneiro (PDT) convidou o irmão, vereador Sérgio Carneiro (PT), para integrar sua equipe, à frente de uma das mais importantes pastas do município, a Secretaria de Governo. Mas, depois de brigas familiares entre Sérgio e a primeira-dama, Maria Luíza, presidente do Instituto Ação Cidadania (IAC), o irmão foi desconvidado e substituído por ninguém menos que o vereador - e cunhado do prefeito - Sérgio Luís Lacerda Brito (PDT).

De acordo com Emerson Garcia, promotor de Justiça no Rio de Janeiro, assistente da Assessoria de Assuntos Institucionais da Procuradoria Geral de Justiça, pós-graduado em ciências políticas e internacionais, e mestrando em ciências jurídico-políticas pela Universidade de Lisboa, "nepotismo, em essência, significa favorecimento". E, segundo ele, atenta contra os princípios da moralidade e da legalidade porque, neste caso, o gestor "não sabe diferenciar o público do privado", ou seja, transforma a administração pública num verdadeiro "negócio de família".

É exatamente isso que está ocorrendo na prefeitura de Salvador. Um dos casos mais escancarado de nepotismo ocorre com o próprio vice-prefeito, Marcelo Duarte. Ele foi escolhido pelo filho e presidente estadual do PSDB, Nestor Duarte Guimarães Neto, então coordenador de campanha do prefeito João Henrique, para vice da chapa. Um verdadeiro acerto de família, que depois levou Nestor Duarte Neto a ser escolhido para a Secretaria de Transportes e Infra-Estrutura do município.

O clã dos Duarte não impera apenas na vice-prefeitura e na Secretaria de Transportes e Infra-Estrutura. Nestor Duarte conseguiu emplacar os irmãos Márcio Gordilho Duarte Guimarães como diretor-presidente da Empresa de Processamento de Dados de Salvador (Prodasal) e Lucila Gordilho Duarte Guimarães como assessora-chefe no gabinete do próprio pai, o vice-prefeito. "Questão de competência e confiança", como justificaria o deputado Severino Cavalcanti.

Mas os casos não param por aí. O secretário de Serviços Públicos, o também tucano Arnando Lessa da Silveira, para não deixar transparecer que contratou o irmão para trabalhar em sua própria pasta, deu um "jeitinho" para encaixá-lo na pasta do correligionário Nestor Duarte. Aroldo Lessa da Silveira é um dos coordenadores da Secretaria de Transportes e Infra-Estrutura, numa jogada que é comum na Câmara Federal para dificultar a descoberta do nepotismo: encaixar um parente na secretaria de um amigo, ou no gabinete de um correligionário.

No Instituto de Previdência de Salvador (IPS), recentemente denunciado pelo vereador Téo Senna (PTC) como escritório de campanha do presidente estadual do PDT, Severiano Alves, é detectado outro caso de nepotismo: o presidente do PDT, que teve atuação decisiva na escolha de João Henrique para concorrer à prefeitura dentro do partido, emplacou seu genro, Ricarte da Silva Passos, para presidir a instituição. Agradecido, o presidente do IPS escolheu para chefe de gabinete o cunhado Sérgio Nascimento.

A distribuição de cargos entre parentes de pedetistas não se limita ao caso de Severiano Alves. O vereador Odiosvaldo Vigas Bonfim, um dos maiores defensores, na Câmara Municipal de Salvador, da administração do ex-governador João Durval Carneiro e um dos maiores entusiastas da candidatura de João Henrique, teve a sua fidelidade reconhecida. Ele ganhou a indicação do irmão, Ubirajara Vigas, para assessor-chefe do Instituto de Previdência do Salvador (IPS).

Na Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social (Sedes), o secretário Carlos Ribeiro Soares designou um parente, Marcos Vicente Ribeiro Soares, seu assessor direto, e ainda emplacou outro parente, Sandra Maria Ribeiro Soares, como assessora especial da Secretaria de Governo, administrada pelo cunhado do prefeito.

Curiosamente, quem também sempre condenou o nepotismo na administração pública também deu um "jeitinho" para empregar a irmã na prefeitura, que ajudou a eleger com o apoio de última hora, e justamente no único projeto de sua administração que sobreviveu - apesar de ter sido necessário uma ampla reformulação para também não afundar: a Fundação Cidade Mãe é presidida por Iara Souza Farias, irmã da deputada estadual e ex-prefeita Lídice da Mata (PSB).

Outro caso de nepotismo na prefeitura é do ex-vereador Carlos Alberto Batista Neves, do PMDB, ligado ao deputado federal Geddel Vieira Lima, que empregou duas parentes na atual administração: Rosana Bezerra Batista Neves, auditora-chefe da Secretaria Municipal de Saúde; e Célia Maria Tavares Batista Neves, assessora técnica da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social.



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